O dia em que não encontrei Eduardo Campos


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A expectativa de prefeitos, vereadores e convidados era grande para a chegada dele. Era o começo da tarde do dia 21 de março de 2014. Naquela sexta-feira, acontecia mais um dia de palestras do 58º Congresso Estadual de Municípios, realizado em Campos do Jordão – a cerca de 170 quilômetros de São Paulo –, com organização da Associação Paulista de Municípios (APM).

Ele falaria à plateia por volta das 16h30 e eu cheguei por volta de uma hora antes, debaixo de muita chuva e o frio tradicional da cidade. Quando entrei no auditório do centro de convenções, o público aguardava o ex-governador de São Paulo José Serra, que graças ao seu “complexo de noiva” (ele não chega a um compromisso com menos de uma hora de atraso) me fez sair de lá às 21h30 – mas isso não importa aqui.

Então governador de Pernambuco, um mês antes de renunciar ao cargo para disputar a eleição presidencial, Eduardo Campos era o convidado para falar no painel “Espaço Democrático”. Ele não faria propaganda eleitoral propriamente dita, até porque na época aquilo ainda não estava liberado, mas discutiria uma série de temas que provavelmente estariam em destaque na campanha.

A ansiedade era nítida, especialmente, nos olhos de tucanos. Ouvi de um vice-prefeito do interior: “Se não nos cuidarmos, vamos perder o segundo lugar para esse rapaz. Ele tem um pensamento bom, tem a confiança de muita gente”. Um colega, de um partido de esquerda, respondeu: “Muita gente do Nordeste, e isso também preocupa a gente”. Os dois conversavam comigo como se eu fosse político como eles, mas na época eu era apenas um estagiário de Jornalismo cobrindo uma pauta simples.

Quando o agora candidato a senador José Serra saiu do palco, acompanhado de um mar de papagaios de pirata, eu fui até o outro lado do prédio onde acontecia o evento, rumo à sala VIP, de onde sairia o pré-candidato ao Planalto. Como a imprensa foi junto com o homem do PSDB, o espaço ficou livre para eu conseguir falar com o do PSB, já que fui sozinho. Não havia movimentação de seguranças no local em que estaria o homem.

No entanto, quando os importantes começaram a sair da sala, quem veio à frente foi Marina Silva e não Eduardo Campos. Quando a cumprimentei e perguntei pelo titular da chapa, ela contou que houve um empecilho que fez com que a agenda fosse mudada. Assim que ela entrou no auditório, de pronto, o desânimo foi total. Ela não era esperada.

Marina falou por duas horas e, sentado ao lado daqueles dois políticos de quem falei, eu conseguia ouvi-los dizer expressões como “Que mulher!” e “Tão pequena e frágil, mas tão forte”. Mas ambos concordavam em uma coisa: “Ela é boa, mas ‘ele’ é o cara”. Os dois se referiam a Campos, que a centenas de quilômetros de distância não ouviria sua vice falar sobre vacas que voam e tudo mais.

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Na manhã quarta-feira, 13 de agosto, quando cheguei à redação para mais um dia de trabalho, fiquei sabendo por um estagiário de uma rede de televisão de que talvez Eduardo Campos estaria no avião acidentado poucas horas antes no Boqueirão, na cidade de Santos. Comentei com os colegas de trabalho, rindo: “olha o que estão dizendo, que o Campos estava naquele avião da Baixada, não é um absurdo pensar isso?”. Sim, concordo que era um absurdo. Mas absurdos acontecem o tempo inteiro e eu estava errado. A aeronave o trazia do Rio de Janeiro para o litoral, onde o candidato faria eventos de campanha.

Confirmada a informação pela assessoria de imprensa do partido, a expectativa era para que ao menos as pessoas estivessem feridas. Em casos como esse, nunca acreditamos na morte, num primeiro momento. Qualquer tipo de acidente é chocante. A situação morte envolve os mais diversos sentimentos, como todos sabem, e foi isso o que manteve todos grudados aos veículos de comunicação, aliados, opositores ou desafetos. Porque a morte une as pessoas.

E ainda mais quando a pessoa que morre é uma das promessas de uma proposta política diferente para o país, que de todo modo contribuiria para discussão de um Brasil melhor e, ainda mais, não aparentava a falta de escrúpulos no jogo eleitoral. Contudo, é preciso ter cuidado para não endeusá-lo – já que é isso o que acontece com quem morre no auge da carreira.

Não bastasse a tristeza do acidente, o que choca ainda mais é a necessidade de veículos de comunicação (quase todos) em enfatizar o estado em que ficaram os corpos das vítimas. A luta pela audiência acabou com a noção dos jornalistas em ao menos respeitar os familiares. Como disse Ivan Miziara, diretor do Instituto Médico Legal (SP) de São Paulo, não é ético fornecer esses detalhes. De fato. Há pressupostos que devem permanecer no silêncio.

Os restos mortais das sete vítimas (Campos, quatro assessores, piloto e copiloto do jato) chegaram à capital por volta das 20 horas do mesmo dia da tragédia e por identificação através de DNA. Uma equipe de 30 policiais técnico-científicos do Estado e quatro peritos da Polícia Federal estão apoiando os trabalhos. A realização dos exames de DNA ficará sob a responsabilidade de 10 peritos criminais do Instituto de Criminalística (IC), especialistas em genética forense.

De acordo com Ivan Miziara, os primeiros resultados dos exames de DNA nos restos mortais resgatados na área do acidente aéreo devem ficar prontos neste sábado (16). Com exceção do piloto, cujo material genético já está em análise, todos os perfis genéticos das vítimas já foram finalizados. Que a família possa ser confortada com a velocidade e responsabilidade desse trabalho.

E como disse o francês Guy de Maupassant, “os dias que se seguiram foram de muita tristeza, dias tépidos de um lar que parece vazio pela falta do ser familiar que sumiu para sempre, dias de sofrimento ao encontrarmos cada objeto que lembra a pessoa falecida. A todo o momento uma saudade revive em nosso coração para torturá-lo. Aqui uma cadeira, o guarda-chuva deixado na sala de espera, seu copo que a criada deixou de retirar! E em todos os cômodos encontram-se coisas esparsas: suas tesouras, uma luva, um livro cujas folhas foram viradas por seus dedos, um grande número de pequenas coisas que assumem um significado doloroso, porque lembram mil pequenos acontecimentos”.

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