Fim de uma dor, início de outra


Ninguém é tão velho que não espere que depois de um dia não venha outro, disse uma vez o filósofo Sêneca. Mas talvez não tenha sido o que pensou um aposentado de 74 anos, por volta das 15h30 do dia 28 de setembro. Ele deve ter chegado ao ápice do cansaço de ouvir o pedido, naquele domingo.

O velho comprou um morteiro e encontrou um cano de PVC para que pudesse completar o plano. Por mais que ele quisesse partir junto, como Rachel de Queiróz diria, morrer, só se morre só: o moribundo se isola numa redoma de vidro, ele e a sua agonia, nada ajuda nem acompanha.

Depois de escrever cartas aos familiares, pedindo desculpas por aquilo que faria, Nelson colocou o explosivo dentro do tudo e deitou-se sobre o corpo da esposa, Neusa, de 72 anos. Tudo acontecia no quarto de uma casa de repouso de São Lucas, bairro da zona leste de São Paulo.

Um amante sobre o outro. Uma cena que seria romântica em muitos filmes. Mas a mulher, provável companheira de muitos anos, talvez estivesse dormindo e não tenha percebido quando ele acendeu o pavio da bomba. Em poucos segundos, a fumaça, o barulho, o sangue e a dor se espalharam pelo cômodo.

Os cuidadores do asilo, ao ouvirem o barulho, acreditaram que fosse um tiro e chamaram uma equipe da 3ª Companhia do 21º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano (BPM/M). Os policiais encontraram e socorreram a mulher ferida ao Hospital da Vila Alpina, onde com um grave ferimento no tórax, ela não resistiu e expirou pela última vez.

Nelson estava caído ao chão, com a roupa chamuscada e queimaduras no peito, acompanhadas de um sangramento no rosto. Quando perguntado sobre o que aconteceu, ele contou que havia pensado em tudo para explodir o artefato entre seu corpo e o corpo de sua esposa, mas não apenas isso.

À policiais civis do 56º Distrito Policial (Vila Alpina), ele revelou que quando sua esposa ainda conseguia falar – a voz já havia se perdido no tempo –, seu último pedido era a morte, que seu marido ajudasse a por um fim em todo aquele sofrimento que ela sentia.

O suspeito foi encaminhado ao Hospital Sapopemba, para receber atendimento médico. O idoso está escoltado por policiais militares que o levarão para a cadeia assim que ele receber alta. Ele vai responder por homicídio qualificado.

A equipe de perícias do Instituto de Criminalística (IC) vai analisar as cartas escritas pelo idoso, que aparentemente também queria dar fim à própria existência. Como Julieta, que ao ver Romeu envenenado, se apoderou do punhal do amado para partir o coração de todos os apaixonados por literatura de todas as gerações futuras.

E para acabar o conto real desse cotidiano do jornalismo policial, cabe apenas olhar para o velho, só, ferido e sem liberdade, lembrando o que escreveu Jorge Luis Borges. “Restam o homem e a alma.”

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