Retórica dos namorados


Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida; tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena, o acender das luzes, o preparo das rabecas, a sinfonia…

Eu não podia tirar os olhos daquela criatura de quase quatorze anos (completaria em dezembro), pequena, delicada e magra, que vestia um uniforme azul marinho com um timão vermelho e marrom. Os cabelos sempre estavam soltos e não eram tão compridos assim. Morena, olhos da cor do sol poente, tinha a boca divinamente desenhada e um sorriso encantador.

Assim como a Capitu de Machado de Assis, ela tinha um olhar de ressaca, aquele arrebatador, que tudo toma para si – também havia me tomado. Corria pela eternidade o ano de 2006, éramos adolescentes, mas ela nunca virou para mim e disse que eu era um “mocetão”, como Capitolina a Bento, o Bentinho.

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Em verdade, em verdade, vos digo: sequer uma vez naquele ano, o mesmo em que nos conhecemos, dispensou-me palavra. Salvo engano, apenas uma vez ou outra, como já é de conhecimento. O fato é que, sempre ao vê-la, todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela boca fora.

A vontade de pará-la enquanto ela caminhava graciosamente pelas escadas do colégio se debatia dentro do meu peito. Com aquele sorriso, as bochechas pálidas pelo frio e o nariz vermelho por alguma alergia, a moça dava passos que pareciam pregar algo muito profundo em algum lugar que fazia meu corpo de arrepiar exatamente no centro de meu peito.

Quando os nossos olhares encontravam, Deus, um gelo tomava conta da minha espinha enquanto um incêndio se apoderava da minha face, uma inconstância que me deixava meio pálido meio ruborizado. Mas não menos encantado.

Mário Quintana disse que o luar é a luz do sol que está sonhando. Poderia, então, me considerar um satélite. Afinal, vivia eu a sonhar com o dia de poder girar e girar em torno da estrela maior, apenas para me iluminar com aquele brilho eterno que emanava naturalmente da alma dela.

E em meus mais profundos devaneios, eu ouvia a voz de anjo que ela era se dirigir a mim. “Quando você chegou, meus olhos enfim brilharam porque tudo no mundo ficou mais claro, ganhou beleza e ganhou cor. Quando você chegou, as coisas ficaram mais fáceis, o dia ficou mais bonito e a noite pra mim, sorriu. Veio para trazer paz, alegria e iluminar o meu jardim. Sim. Pra contemplar comigo a aurora, num finito dia sem fim.”

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Era essa a frase que eu pensava no momento em que despertei de um sono acordado, trazido à realidade pela voz dela, a moça encantadora, minha colega de classe, com quem nunca tive a coragem de conversar mais a fundo por pura criancice. É verdade que as mulheres amadurecem infinitamente mais rápido que os rapazes. “Ela era mais mulher do que eu era homem.”

Contudo, tratou o destino de nos fazer encontrar. E o novembro a que voltamos não era aquele de quando estávamos misturados entre crianças escandalosas daquilo que era chamado ginásio à época. O novembro era presente, quase uma década depois. E a voz dela vinha direto ao meu ouvido, enquanto seus braços tocavam meus ombros. Me chamava para deitar.

Olhei para ela e percebi como sempre fui apaixonado sem ao menos me dar conta. Ao repensar tudo, hoje, parece tão bobo. Enquanto o mundo inteiro notava, eu tentava me enganar e desviar o caminho que, de alguma maneira, já havia sido traçado por Deus. Não imaginaria que as estradas se cruzariam algum dia no futuro.

E que esse futuro seria o eterno. O sempre esperado, o sempre sonhado. Pelos dois, afinal. Por que não nos aproximamos naquela época? Algo me diz que foi para que mesmo distantes, talvez até um tanto indiferentes, a paixão se aquecesse em nosso coração, à medida que uma saudade desconhecida crescia na alma.

Agora, ela me olhava um tanto curiosa sobre meus pensamentos. Eu estava, então, sentado de costas para ela. Curvei o pescoço e tombei para trás a cabeça, e ela acudiu meus cabelos mais compridos que outrora com as mãos. Ela me abraçou e inclinou-se sobre mim, rosto a rosto, os olhos de um na linha da boca do outro.

Assim ficamos por um bom tempo: a olhar um para o outro. Até que abrochei os lábios, ela desceu os seus e… grande foi a sensação do beijo. Como seria antes, como é agora e como será daqui a muita e muitas décadas.

*Este texto foi escrito com fragmentos de “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, e uma frase de Bruna Alves, que está em itálico entre os parágrafos.

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