Humor e preconceito


Um homem com o corpo pintado de preto que se comunica com grunhidos e danças exóticas. Esta foi a maneira utilizada por um humorista de televisão para retratar um africano. O personagem, que ressalta o preconceito racial, deixou de ser exibido apenas após uma repercussão negativa do público e não por respeito à lei – que é o único limite da comédia.

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O personagem, interpretado por Eduardo Sterblitch para um quadro do programa Pânico na Band, nada mais era do que a recuperação de caricaturas feitas por norte-americanos racistas, no século XIX. O uso da chamada “blackface” (um branco pintado de preto) servia para ironizar a figura do afrodescendente em peças teatrais.

O “africano” foi duramente criticado em redes sociais, e só apenas por esse motivo foi tirado do ar. Imagem ruim afasta patrocinadores. Isso não é um ato destacável. O humorista, antes de tudo, deve ter consciência das feridas que toca quando brinca com qualquer coisa que se refira à cultura e à vida humana, que muitas vezes sangra.

“Preconceitos nascem na cabeça do homem. Por isso, é preciso combatê-los na cabeça dos homens, isto é, com desenvolvimento das consciências e, portanto, com a educação, mediante a luta incessante contra toda forma de sectarismo.” (BOBBIO, Norberto. Elogio da serenidade e outros escritos morais. São Paulo: Unesp, 2002).

Enquanto esse episódio for lembrado, ouviremos defensores dos comediantes dizerem que o humor não pode ter limites – que dar limites seria uma forma de voltarmos à censura. Mas isso é apenas bobagem. Porque quem diz isso certamente nunca foi afetado pelo conteúdo preconceituoso de algumas piadas. Geralmente as pessoas que defendem esse tipo de humor estão fora dos grupos minoritários que sofrem as consequências deste humor. É claro.

Vocês devem se lembrar quando o genial (estou sendo irônico, pelo amor de Deus) Danilo Gentili postou em seu Twitter a seguinte frase: “King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?”.

Depois, ele tentou se justificar: “Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco? Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito”.

Como Luciana Genro recomendou, também devo dizer: ele precisa estudar mais. Simplesmente ele não pode chamar gay de veado, gordo de baleia etc. Menos ainda um negro de macaco. Porque é relembrar um termo utilizado em grande parte da história para humilhar esse grupo étnico, como qualquer pessoa com o mínimo conhecimento de história deve saber.

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Trazer de volta à sociedade um preconceito que ainda tem raízes na construção do país (e do mundo, sim) é ratificar a irresponsabilidade dos veículos de comunicação quanto ao respeito e, principalmente à lei, que é – e deve ser – o único limite do humor. Lutar contra a censura não significa deixar de impor regras para impedir que sejam cometidos delitos sob a fantasia de uma liberdade de expressão.

Com colaboração de Bruna Alves.

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