A menina dos meus sonhos


Uma menina de pele morena, cabelos negros e longos soltos sobre o rosto, uniforme azul marinho e blusa rosa para aquecer as manhãs geladas; a ponta do nariz avermelhada por causa de uma rinite alérgica que hoje está curada. A última carteira da fileira da metade de uma sala de escola já pequena para mim era ocupada por ela.

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Os sonhos com essa pessoa desconhecida duraram meses, do início até quase o final do terceiro ano passado. “Estou ficando maluco”, eu dizia a amigos antigos da escola e outros, na época atuais, da faculdade. “Me deixa atormentado sonhar todos os dias com uma pessoa que sequer sei quem é, porque eu não consigo ver seu rosto com nitidez”.

Como os filmes antigos, meus sonhos são em preto e branco – apesar de, no fundo, eu saber quais são as cores de cada coisa – e sem som – as personagens da minha mente falam sem mover os lábios, em algo que J. K. Rowling chamaria, quem sabe, de legilimência. Se eu fosse Harry Potter, teria praticado a oclumência.

Teria fechado minha mente para que eu pudesse me proteger da curiosidade que eu tinha de saber o que aquele sonho significava. Começou aí minha vontade de ler muito do que Sigmund Freud escreveu. Entretanto, quanto mais tentava fugir, mais me aproximava daquele cenário e podia até sentir os aromas daquela escola.

“Por tantos anos me afastei desse lugar com a única vontade de nunca mais retornar e, do nada, sou levado por sonhos até lá”, pensava. “Estou precisando de uma cerveja para ver se, com álcool no organismo eu paro um pouco de ser xarope”, disse, uma vez, a um ex-colega, quando estávamos no terceiro semestre de jornalismo.

Mas, apesar de tudo, aquele mistério que me envolvia de uma forma muito profunda. Me deixava inquieto para resolvê-lo – porque eu sempre quis ser um tipo de Sherlock Holmes. Elementar. Pouco mais de três anos depois que esses sonhos pararam, vejo que a lembrança que eu tinha justamente daquele lugar era a maior e mais óbvia prova para desvendar o segredo. E sempre deixei a pista de lado.

E deixei de lado até novembro daquele ano de 2012, quando o mês já havia percorrido a metade de seu caminho. Em junho, havia reencontrado uma colega que havia estudado comigo em uma das séries do ensino fundamental. Foram cinco meses de conversas até que a gente marcasse de sair.

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Nosso primeiro encontro seria no dia 15 de novembro. Seria a data da proclamação da nossa república. Mas houve um imprevisto (a timidez) e remarcamos para dois dias depois. Acontece que, na véspera do nosso passeio, sonhei, pela 57ª vez naquele ano, com a cena da escola e da menina sem rosto que sentava na fileira do meio.

Seu rosto coberto pelos cabelos, sempre voltado para baixo, atento a um caderno cujas páginas não terminavam jamais, finalmente se levantou para me encarar. Os olhos castanhos me eram familiares e foi através do olhar que consegui enxergar o que nunca tinha percebido: desde o começo, era ela, era a Bruna.

Incrível como as lembranças se tornavam concretas na minha mente. Era ela a menina que sentava na última carteira da fileira do meio, a terceira da sala de aula, nos últimos anos do ensino fundamental. Nunca havíamos conversado, mas já sabia que às vezes ela ficava com o nariz vermelho. “Eu não tenho rinite, Rafa”, reclama ela quando digo.

Não importa, porque se a mãe dela diz que tinha, é porque tinha. E eu lembro como se fosse hoje de como ela era meiga e andava com algumas meninas que, na época, eu achava um tanto metidas (e se elas lerem isto, saibam que não acho mais – em alguns casos, tenho certeza, quer dizer, é brincadeira).

Pela primeira vez na vida, percebi como um sonho pode se realizar sem que ao menos a gente possa se dar conta. O fato é que percebi, finalmente, que o maior dos meus sonhos sempre esteve perto de mim e hoje faço que tudo tenha ainda mais valor, me dedico ainda mais a tornar os outros sonhos reais a partir da realização desse.

Hoje, dia 17 de novembro de 2015, completamos três anos juntos e o leitor já sabe que a cada ano tenho mais e mais detalhes para contar sobre como tudo começou e como tudo vai caminhar até os próximos três anos, quando vamos nos casar. Na verdade, ainda não sei se vamos, porque eu não perguntei a ela ainda.

Então, aproveito a oportunidade: amor, quer se casar comigo?

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