A morada da dor


“Seria muita ingenuidade acreditar que os generais Emílio Médici e Orlando Geisel criaram os DOIs (destacamentos de operações de informações) sem terem percebido que a sigla se confundia com a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo doer. Por mais de dez anos essas três letras foram símbolo da truculência, criminalidade e anarquia do regime militar.”

De todos os livros que li sobre a ditadura militar que tomou conta do Brasil de 1964 a 1985, é essa a definição mais representativa do que foi o órgão de repressão do governo na época. É o primeiro parágrafo de um dos capítulos do segundo de quatro livros que o jornalista Elio Gaspari escreveu sobre o regime ­– “A Ditadura Escancarada” (Intrínseca, 2002).

Essa definição, por mais sutilmente óbvia que seja, não estava, contudo, no livro “A Casa da Vovó” – a biografia do DOI-Codi escrita pelo jornalista Marcelo Godoy, d’O Estado de S. Paulo. A obra recebeu no último dia 3 de dezembro o merecido Prêmio Jabuti da categoria de reportagens e documentários, deixando para trás autores como Almino Affonso e Paulo Markun, que concorreu com “Brado Retumbante”.

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Marcelo Godoy, à esquerda, recebeu o Prêmio Jabuti no dia 3 de dezembro de 2015. A foto é da Câmara Brasileira de Livro, que organiza o concurso.

Durante dez anos a partir de 2004, Marcelo Godoy realizou uma vasta pesquisa e uma série de entrevistas justamente sobre o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) de São Paulo, que surgiu como um prosseguimento da Operação Bandeirante (Oban), a partir de 1969. Godoy não utilizou a descrição de Gaspari, como eu já disse, mas tentou, por outras formas, demonstrar a prática disso.

Publicado pela Alameda Editorial em 2014, o livro “A Casa da Vovó” já teve uma segunda edição este ano. A obra se vende como uma biografia do destacamento paulista – “o centro de sequestro, tortura e morte”, como está no subtítulo ­–, mas acaba sendo, no geral mais um livro de memórias dos agentes da repressão antecedido por um referencial teórico de monografia universitária. Escrito de forma impecável, aliás.

O autor trabalha com jornalismo há duas décadas e exerce a profissão atualmente no Estadão. Ele entrevistou cerca de 100 vezes 25 agentes do DOI, dos quais quatro são mulheres, e podemos dizer que algumas delas muitas vezes se revelam mais cruéis que os homens. A maior parte das entrevistas foi gravada. Apenas uma não foi, a de Chico, o agente que mais colaborou com a narrativa. A credibilidade que Godoy construiu ao longo dos anos permitiu que isso não fizesse a obra cair na desconfiança.

O livro custa R$ 69 e tem mais de 600 páginas, das quais mais de 100 foram dedicadas a análises do que foi chamado de doutrina do combate à guerra revolucionária. Extremamente importantes, os capítulos teóricos foram, contudo, por demais prolongados, deixando a primeira parte cansativa. Eu, como leitor, me interessei pouco em me aprofundar no que dizem os pensadores que influenciam os militares brasileiros.

Falei antes que “A Casa da Vovó”, termo como os agentes denominavam o órgão repressivo que é o foco da obra, era mais um apanhado de memórias do que uma biografia. O jornalista reúne e cruza com dados de sua pesquisa as lembranças dos agentes, logo, tudo é construído em cima do que eles tinham a dizer. Pouco havia do outro lado, a versão das vítimas.

Entretanto, seria difícil encontrar forma mais objetiva de demonstrar a crueldade de alguns agentes. Cito um exemplo. “Olha, meu filho, eu voltaria a fazer tudo de novo. Não me arrependo; só me arrependo de estar na situação que está isso hoje, com eles todos no Poder. Aconteceu, meu filho. Alguém precisava fazer esse serviço”, disse a tenente Neuza (nome de guerra), em entrevista concedida a Godoy em março de 2005.

Apesar disso, em alguns casos que tiveram mais importância no período, Marcelo Godoy procurou traçar um paralelo com a versão da esquerda e, também, com a versão isenta dos fatos, seguindo os resultados de sua minuciosa e dedicada pesquisa de 10 anos. Ele destaca isso, em um dos capítulos: “Procurei ouvir e entrevistar sem perder de vista a lógica de quem falava, mesmo sabendo que compreender, de fato, não significa aceitar”.

Assim como Elio Gaspari, na sua série sobre a ditatura nos cria empatia com o presidente Ernesto Geisel – ou como Caco Barcellos nos faz conviver de forma harmoniosa com o Juliano VP, o dono do Morro Dona Marta em “O Abusado” ­–, Godoy faz com que, inevitavelmente, tentemos compreender as razões pelas quais os agentes da tortura cometiam esses crimes.

Sem compactuar com isso, nossa indignação se transforma, muitas vezes, em pena dos militares e dos policiais, por serem imaturos e vazios de caráter e sentimento humano, seja lá o que isso signifique. Porque a crueldade – visível, por exemplo, na morte de Antonio Benetazzo, do Movimento de Libertação Popular (Molipo) – não tem justificativa, assim como, na hierarquia dos porões da ditadura, não teriam perdão as trabalhadas dos espertos agentes.

“Quatro homens da Investigação levaram o guerrilheiro ao Sítio 31 de Março. Sinício dirigia o veículo onde estava Benetazzo. Ao seu lado, estava Pedro Aldeia. No banco traseiro iam o cabo Jonas e um investigador. Colocaram-no entre os bancos traseiro e dianteiro. Benê viajou encapuzado. Ao chegar, desceram-no do carro e, sem que ele pudesse pressentir o que ia lhe acontecer, deram-lhe um golpe na cabeça. Em seguida, deitaram-no no chão e passaram com a roda do Fusca em cima de seu crânio. Para os homens do DOI, havia sido suficiente para fazer o paciente morrer. Colocaram-no no carro. O próximo passado foi levar o corpo à Rua João Boemer, no Brás. Um dos agentes conhecia o delegado do distrito policial da área, o que facilitaria a operação. A ideia era encenar um atropelamento, como se o guerrilheiro h ouvesse revelado um ponto  e, levado para cobri-lo pelos agentes, tivesse decidido atirar-se debaixo do caminhão. Mas a caminho do Brás, Benê acordou (…). Os militares passaram por cima do horror, deram meia-volta e retornaram ao Sítio para terminar o serviço. Desta vez, não usaram o carro. Benetazzo ia morrer a pedradas. E assim o fizeram.”

“A Casa da Vovó” é uma leitura obrigatória para compreender o funcionamento do sistema de sofrimentos criado a partir do golpe que derrubou João Goulart da Presidência da República. Além disso, são boas fontes de estudo os 260 títulos referenciados na bibliografia da obra.

O único problema evidente na obra é o excesso de notas de rodapé. São 200, ao todo. Muitos são longos demais e poderiam ser incluídos como parágrafos no texto e outros são irrelevantes e irritantes, como “ver entrevista tal, no lado tal da fita tal”. O leitor não tem acesso a esse material durante a leitura, portanto, é desnecessário.

Além disso, considerando o início da introdução, na página 19, até o final do texto, na página 525, não mais que 30 páginas deixaram de ter rodapés. A leitura, com isso tudo, torna-se truncada, porque o texto é tão bem escrito que é impossível não ter vontade de ler até as informações extras. Recomendo, entretanto, que o leitor se desapegue disso para que aproveite melhor a obra. Aos editores, sugiro a criação de um apêndice em próxima edição.

42752612Com isso, haveria mais aplausos.

A Casa da Vovó
Autor: Marcelo Godoy.
Editora: Alameda Editorial.
Ano: 2014.
Páginas: 612.
Nota do Reticência Jornalística: 4,5 de 5.

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