Campeão mundial


Era noite do dia 4 de julho de 2012. O Corinthians e o Boca Junior se enfrentavam no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, na final da Copa Libertadores da América.

No segundo tempo da partida, aos 8 e aos 27 minutos, Emerson Sheik – hoje no Flamengo – marcou os dois gols que deram a vitória ao Sport Club do Parque São Jorge.

Apresentação1

Decepção total da oposição, se fosse este ano, pediriam impeachment do título e fariam ridículas manifestações na Avenida Paulista pedindo intervenção da Fifa.

Naquele dia, dizia meu pai, um santista fanático, acabou toda a graça do futebol, com essas piadinhas sobre a falta do título ao todo-poderoso. De fato, foi isso que aconteceu com o passar do tempo.

O Corinthians Paulista não é mais fonte da maior parte das piadas futebolísticas. Isso sobrou para a Sociedade Esportiva Palmeiras, que é uma piada em si mesma.

Ao toque do apito, anunciando que o Timão levantaria o caneco, meu pai, que assistia ao jogo no sofá, ao meu lado, levantou, irritado, para ir dormir. Ele não conseguia acreditar.

Tantos anos dispensando ao mundo seu mais qualificado relatório de frases engraçadas anticorintianas foram em vão. Ele precisaria de muita criatividade para elaborar novas anedotas.

Na tentativa de fazer uma última, antes de dormir naquele dia, me disse: “Antes de essa galinhada ganhar o [Campeonato] Mundial de Clubes, eu morro. Morro, mas não vejo o Corinthians ser campeão”.

Essas palavras ficaram guardadas na minha memória durante todo esse tempo. Nessa época, meu pai lutava contra um câncer de pulmão que já se irradiava pelo corpo.

Roberto dos Santos 3

No dia 13 de dezembro daquele ano, ele se sentiu mal e foi, de ambulância, para o hospital, onde, pensava eu, teria a oportunidade de assistir à partida do mundial, que aconteceria no domingo.

Na manhã daquele dia 16 de dezembro, no Estádio Internacional de Yokohama, no Japão, o Corinthians venceu o Chelsea diante de um público de 68.275 pessoas, com gol de Paolo Guerrero.

Mas o meu pai não viu o alvinegro ser campeão. Durante a madrugada, ele deixou este mundo e cumpriu sua profecia. Nem ele nem eu vimos o Corinthians ganhar a copa do mundo.

Isso tudo aconteceu exatamente há três anos e em todo esse tempo, não consegui entender como meu pai escondeu seus dotes de vidente. Se ele tivesse dito antes, a gente poderia ter ganhado uma grana indo ao programa da Sônia Abrão.

Tenho certeza de que ele, em seu infinito bom humor, se estivesse vivo hoje, relembraria essa história com muitas gargalhadas. Como ele não está aqui, quem diz sou eu: sinto saudade.

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