Bela, recatada e do lar


Marcela Temer que me desculpe, mas sinto pena por ela ser o bode expiatório que a Veja usou para ressaltar suas visões políticas estúpidas e machistas.

A imagem da segunda dama do Brasil, como já sabem, foi definida pela revista como “bela, recatada e do lar”.

Completamente lastimável.

A revista reduz o universo de Marcela a algo simples e banal, ressalta a importância de ser uma mulher que vive sempre em segundo plano, realçando o brilho do marido. E mostra Michel temer como um príncipe de novela. É o apoio maquiado ao golpe.

O texto da Veja é lamentável não pelo fato de Marcela ser considerada bela e recatada pela jornalista Juliana Linhares, além de ser caseira. O que é perfeitamente normal e aceitável, desde que seja a vontade a mulher.

O texto da Veja é lamentável pela forma imbecil como Marcela foi descrita.

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Em primeiro lugar, a esposa do vice-presidente conspirador é bela segundo um padrão de beleza comercial. Feita para ser usada em propagandas.

Quase uma prostituição visual da mulher.

Isso é ressaltar ainda mais a bobagem de que toda mulher deve ser igual, padronizada, como se o ser humano fosse um robô. Tudo com o objetivo de atacar, evidentemente, Dilma Rousseff.

A presidenta, que está sendo vítima de um golpe, foge aos padrões e tem a marca de mulher dura e forte, na contramão daquela mulher – bobinha, submissa e que não tem sonhos distantes da família – admirada pelo machismo típico.

A pesquisadora e colunista da Carta Capital Djamila Ribeiro, também destacou em artigo sobre o grotesco caso que, “para boa feminista, meia imposição basta”.

“Fica evidente a tentativa da revista de fazer uma oposição ao que Dilma representa. Uma mulher aguerrida, forte, fora do padrão imposto do que se entende que uma mulher deve se comportar. Mais, é como se dissessem: mulher boa é a esposa, a primeira dama, a ‘que está por trás de um grande homem’.”

Especificamente neste caso, Simone de Beauvoir talvez dissesse que em qualquer determinação ou vontade que essa mulher tenha, a sociedade – representada aqui por Veja – destacará a fraqueza, porque a mulher é limitada sem o vigor do macho.

O que é uma grande bobagem.

Elizabeth Gould Davis escreveu que os homens necessitam das mulheres mais do que as mulheres necessitam dos homens.

“Ciente deste fato, o homem tem procurado manter a mulher dependente dele economicamente como o único método disponível para ele fazer-se necessário para ela. Como no início a mulher não se tornaria sua escrava voluntária, ele tem feito ao longo dos séculos uma sociedade na qual a mulher deve servi-lo para sobreviver.”

Outro ponto da reportagem que tem rendido uma grande discussão nas redes sociais é o fato de Fernanda Tedeschi ter afirmado que sua irmã Marcela sempre foi recatada. Ela gosta de “vestidos até os joelhos e cores claras”.

A esposa de Michel Temer deve ser uma freira, então.

Claro que não é.

A segunda dama é tratada como uma das dezenas de mulheres de um harém, que se escondem da sociedade para se “mostrarem” somente ao marido.

A revista, aborto jornalístico, deve imaginar que ainda estamos na Idade Média.

Isso só mostra, como enfatizou Tamires Coêlho, que “a mulher ainda é mais vista como objeto de atração masculino do que como ser pensante que tem um papel social muito mais complexo que o de ‘esposa’ e ‘dona de casa’”.

“É essa a comunicação que queremos? São essas as mensagens que deveriam circular em uma sociedade que se diz “mais justa e igualitária”? São essas mensagens, esses discursos, esses posicionamentos que sedimentam ainda mais a imagem inferior da mulher em nossa sociedade.”

A propósito, vale lembrar que Marcela começou a namorar com Michel aos 19 anos, e, segundo a lenda, o relacionamento começou depois de ela enviar alguns tantos e-mails para a assessoria do então deputado.

Seguindo a lógica machista da Veja, me causa espanto que não a tratem como uma sem-vergonha, como sabemos que a publicação trataria uma mulher anônima.

A mulher tem o direito de vestir o que quiser, de usar as cores que quiser, de não ser rotulada por sua cultura, suas maneiras ou seus hábitos. Parece óbvio, não é?

É um absurdo que em pleno ano de 2016 ainda seja necessário dizer isso a um veículo de comunicação que vive da má fé.

E sabemos que a revista Veja tem um histórico de oprimir o direito de liberdade das mulheres. Não esqueçamos do texto publicado pelo asqueroso Rodrigo Constantino, em 2014, autor que absurdamente dizia entrelinhas que a culpa do estupro é da vítima.

Em último lugar, a esdrúxula reportagem diz – para revolta geral, e com razão, dos usuários de redes sociais – que Marcela é uma vice-primeira-dama do lar.

“Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele).”

Bom, aposto que todos os cuidados da casa são transferidos para uma empregada.

Assim como a educação da criança deve ser em grande parte terceirizada.

Porque é isso o que costuma ser feito.

Talvez, Marcela não saiba nem cozinhar feijão (Dilma sabe fazer omelete).

O que não é um problema.

O problema é justamente decidirem que toda boa mulher deve ser do lar.

Como estão dizendo bem, a mulher é de onde ela quiser.

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