Primeira página do afastamento


O dia 12 de maio de 2016 marca a história do Brasil como a data em que uma presidenta foi afastada após senadores aceitarem a abertura de um processo de impeachment. Apoiado por grandes veículos de comunicação, o golpe deu a Michel Temer a presidência interina do Brasil.

Ontem (11), destacamos o alvoroço dos veículos de comunicação impressos e hoje também vamos analisar algumas capas e artigos, a seguir, considerando que devido ao horário da votação, muitos jornais circularam sem a informação final.

Os editoriais de O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão trazem argumentos em busca de legitimidade para o processo de impeachment, que tem sido tratado pela presidenta Dilma como um golpe. 

O Globo

O jornal O Globo, com a manchete “Dilma afastada” foi o único entre os grandes veículos de imprensa a circular apenas após a votação da admissibilidade do processo de impeachment pelo Senado, exatamente às 6h34 desta quinta-feira, dia 12 de maio.

A publicação destaca que temes assume com reformas (ministeriais, especialmente) e apresenta uma foto ilustrativa com os senadores comemorando ou não o resultado. O editorial fica evidenciado na primeira página com o título “Novo marco de defesa da responsabilidade fiscal”.

O texto aponta que o governo Dilma, em 2015, editou decretos, sem aprovação do Congresso, com autorização de novas despesas. “Um ato monárquico, ou stalinista, de desprezo pela República”, afirma.

“A cassação de Collor, o primeiro presidente eleito pelo povo depois de uma ditadura militar de 21 anos, foi uma afirmação do estado democrático de direito. A abertura do processo contra Dilma é uma consolidação do princípio civilizatório da responsabilidade fiscal.”

Durante a argumentação, os petistas são chamados de arrogantes por adotarem “velhas políticas” que não haviam dado certo no país, aliando a imagem do governo ao retrocesso e ligando esse retrocesso às chamadas ilegalidades fiscais.

O Globo_12052016

Folha e Estadão

Com uma edição finalizada um minuto antes das duas horas, a Folha de S. Paulo circula em um dia histórico com uma capa fraca, do ponto de vista de impacto. “Temer alterará governo para priorizar comércio exterior”, é o título.

Isso acontece por uma mera necessidade de fechar a edição. A publicação aparentemente preferiu não destacar o afastamento de Dilma Rousseff de maneira mais incisiva antes do término da sessão do Senado.

A ideia é acertada, do ponto de vista da qualidade da informação, mas excepcional seria se a Folha finalizasse a capa após a votação, mas avisasse o leitor (ou cliente) sobre esse atraso e a necessidade da demora, afinal, sabemos que não há nada mais velho que jornal de hoje.

Na edição há uma imagem exaustivamente divulgada nas redes sociais, de Dilma observando o movimento de uma janela do Palácio do Planalto. No editorial, sob o título “O fim e o princípio” pondera que o afastamento da presidenta não suspende o risco de novas crises.

A Folha também aponta que o embasamento do processo contou menos do que a situação econômica e política do país e que Dilma, “foi, ao que tudo indica, pessoalmente honesta e refratária ao toma lá dá cá, mas navegou sem remorsos num oceano de corrupção”.

Em artigo intitulado “Não vai ter volta”, José Henrique Mariante que se a presidenta caísse por causa das chamadas pedaladas fiscais, de fato o afastamento seria um golpe. E abre o texto com uma frase muito interessante para se discutir.

“Para a geração que não viveu 1964 e os anos mais duros da ditadura, o que vivemos nestes dias certamente é o fundo do poço, apesar de o país a cada minuto se esforçar em cavar mais.”

Já O Estado de S. Paulo traz em sua capa, em preto e branco, a figura do herói das ideologias do jornal: Michel Temer. Após uma grande campanha editorial (e nem sempre declarada) a favor do afastamento de Dilma, jornal destaca que Temer vem para encerrar a era do PT no poder, o que parece mais importante do que acabar com “uma crise histórica”.

No pé da página, há uma chamada para o agressivo editorial “Retorno à irrelevância”, que desmoraliza de uma maneira um tanto desrespeitosa a agora presidente afastada do Brasil. O texto afirma que Dilma só se tornou importante por ter arruinado o país.

“[Dilma] Começa a voltar, agora, para sua irrelevância. O mesmo ainda acontece com Lula, o todo-poderoso que concebeu Dilma e foi o grande responsável por tão infausto momento na história brasileira – e nutre esperanças de voltar a morar no Palácio da Alvorada a partir de 2018. Isso, definitivamente, o País não merece.”

O Estadão é firme em seus argumentos, como de costume, mas exagera ao dizer no artigo que “é na descomunal vaidade de Lula que se deve procurar a origem da profunda crise que o país ora enfrenta”, visto que foi ele quem construiu a candidata Dilma Rousseff, em 2010.

No futuro, vamos saber se os editorialistas tinham ou não razão.

Outros jornais

O jornal gaúcho Zero Hora fechou sua edição impressa antes da votação, mas atualizou sua versão digital dois minutos após o resultado ser divulgado oficialmente pelo presidente do Senado Federal, Renan Calheiros. As capas, entretanto, não são tão destacáveis. Diferentemente do editorial, “Mudança democrática”.

“Dilma cai pela impopularidade, pela rejeição do país ao seu governo, pela angústia dos brasileiros diante de um abismo que se aprofunda a cada dia. (…) Ao optar pela mudança de governo mesmo em meio ao mandato, o parlamento interpreta corretamente a vontade da maioria da população.”

O veículo comete um grave erro jornalístico ao publicar esse artigo. Afinal, não é possível saber se o afastamento de Dilma é realmente a vontade da tal maioria da população. Eu sou contra e entre o meu círculo de amigos quase todo mundo é contra também. Não há uma pesquisa com 100% de confiança e essa afirmação enfraquece a credibilidade do jornal.

O Diário de S. Paulo, que tem levado grandes níveis de raiva contra Dilma Rousseff em suas páginas nas últimas semanas, traz na capa a presidenta com olhos fechados e a frase “PT nunca mais”.

Há pouca discussão sobre crise e muita guerra de ideologias. Em comunicação, é necessário o posicionamento, mas não a banalização do fluxo de argumentações.

Aliás, há uma chamada abaixo da foto de Dilma com o chapéu “A ‘novinha’”, que mostra o nível das notícias consideradas relevantes para o que o jornal trata como “público popular”: atriz pornô é presa no litoral com cocaína.

O Agora S. Paulo, do Grupo Folha, que ontem apontou que os manifestantes contra o impeachment eram violentos, hoje veio às bancas com um título mais branco: “Brasil dorme com Dilma e acorda com Temer”. Apesar de ter algo de sexista nessa história de dormir com um e acordar com outro. Até porque, acima da manchete, há detalhe para o roubo de fotos íntimas de Marcela Temer de um celular.

Com o bom humor típico, por fim, o jornal Extra, do Rio de Janeiro, trouxe em sua primeira página o que seria um printscreen do WhatsApp em que Dilma sai do Grupo, com Cunha rindo e Temer se tornando o administrador.

Ontem, o veículo mostrou a sujeira por baixo do tapete estendido pelo Senado para que o vice assumisse a presidência.

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