Governo de salvação


O vice-presidente Michel Temer assumiu a cadeira de Dilma Rousseff na tarde do dia 12 de maio de 2016, uma quinta-feira, com o apoio de Aécio Neves e um ministério sem nenhuma mulher, dizendo que o que pretende fazer com o Brasil é um “ato religioso, um ato de religação de toda a sociedade brasileira com os valores fundamentais do nosso país”. Aleluia.

Durante discurso no Palácio do Planalto, o presidente interino afirmou que “é urgente pacificar a nação e unificar o Brasil, é urgente fazermos um governo de salvação nacional”, para alegria da imprensa, que espalhou ao vento a marca de super-herói. Resta saber qual nação o governo salvará. 

Em todo o país, veículos impressos de comunicação deram ênfase ao discurso conservador de Temer, que ficou rouco e pediu uma pastilha em rede nacional de rádio e televisão. A empolgação da imprensa mostra um pouco da parcialidade como tem sido acompanhado e divulgado o processo de impeachment.

Hoje, vamos olhar para os editoriais da Folha e do Estado de S. Paulo e também para o jornal O Globo, que ontem foi o único a circular após a longa sessão que decidiu o afastamento de Dilma por 55 a 22 votos no Senado. Todos eles olham bem para a gestão de Temer e ainda apontam caminhos, rumos, para ajudá-lo a governar.

Também vale comentar dois artigos: o de Bernardo Mello Franco, na Folha, e o de Nelson Motta, em O Globo. Todo o material está disponível para consulta na internet e foi publicado nesta sexta-feira, 13 de maio de 2016.

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Brasília – O presidente interino Michel Temer durante cerimônia de posse aos ministros de seu governo, no Palácio do Planalto. À esquerda, o senador Aécio Neves (Valter Campanato/Agência Brasill)

Folha

O editorial da Folha de S. Paulo, “A direção de Temer“, aponta um discurso sem novidades por parte do presidente interino da República, Michel Temer, e concluiu que não se pode dizer que haja credibilidade confiança no novo governo, que adotou sem rodeios uma posição liberal. Segundo o artigo, Temer tentou de diferenciar da titular afastada, Dilma Rousseff.

Ao dizer isso a publicação afirma que faltam à Dilma aquilo que Temer utilizou em sua fala: concatenação, tom moderado, recado a empresários, sinais a investidores, mesuras a parlamentares. Além disso, o jornal dá a entender que falta à presidenta ter uma insistência ao legalismo, uma afirmação um tanto delicada.

A Folha descreve, entrelinhas, uma mulher isolada da realidade social e da situação política e econômica do Brasil. O que não pode ser verdade em se tratando de alguém que ocupa (ocupava) a cadeira da Presidência da República. O fato é que Dilma olhava uma realidade oposta àquela sonhada pelo corpo editorial.

Como ponderação, a Folha avalia como decepcionante o ministério convocado por Temer, resultado de um jogo político. Esse chamado loteamento de cargos, sempre é criticado pelo PMDB e foi considera inevitável pela publicação. No cenário analisado pelos editorialistas, mesmo com negociações partidárias era possível achar nomes melhores.

A Folha considera um erro não haver nenhuma mulher entre os chefes das pastas, não apenas porque o último ministério assim foi na Ditadura Militar, mas porque isso contribui com a imagem de Dilma “em sua narrativa de vítima do machismo”. O jornal, ao dizer isso, ignora os ataques que a presidenta tem recebido e banaliza os atos machistas.

Sessenta e quatro

“A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o marechal Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964”, afirma Bernardo Mello Franco no texto “Direita, volver”, publicado na Folha.

A análise do jornalista dá um bom argumento para ser usado pelos apoiadores do Governo Dilma: a guinada é brusca porque a situação é de gole. Numa troca democrática do Poder Executivo, a mudança é sabidamente homeopática.

Estadão

O jornal antipestista (às vezes também antidemocrático) O Estado de S. Paulo foi às bancas nesta sexta-feira 13 afirmando que é preciso restaurar a moralidade e os bons costumes e alguma eficiência ao governo. No editorial “A missão de Temer”, esse “alguma” representa que, para a publicação, a mudança é boa, mas ainda não é a mudança ideal.

Depois disso, “a nação brasileira fará o que sempre soube fazer: crescerá em paz e proverá em abundância”. O Brasil cresce em paz há décadas. Agora, pode estar um tanto incompleta a última expressão. Os brasileiros proverão em abundância o quê e a quem? O trabalho excessivo aos setores opressores da sociedade capitalista? Talvez.

A esperança do Estadão é de que “o país se livrará da nefasta hegemonia política do lulopetismo”, apesar se o sistema político permanecer o mesmo. Claro, afinal a maior parte do parlamento de direita tenta impedir que se reforme não apenas o sistema político, mas todos os sistemas constituídos política ou economicamente no Brasil.

O jornal mais parece um cão raivoso ao afirmar em outro editorial – “Mentiras até o último minuto” – que o impeachment “é e continuará a ser a punição adequada para quem fez da irresponsabilidade e da burla um método de governo”. O corpo editorial adere ao discurso com o qual Aécio Neves tentou questionar a legitimidade da eleição de 2014.

O Globo

O título do editorial da edição de O Globo desta sexta-feira fala por si: “Otimismo com o novo tom do Planalto”. O texto aponta que o principal salão do Planalto havia se tornado um palanque de comício durante a fala de Dilma, ontem de manhã. Mas ignora que o pronunciamento é um direito dela, assim como a livre manifestação é um direito de todo cidadão.

Ao se referir ao discurso de Michel Temer, no final da tarde, o jornal observa atentamente que “a cor vermelha deixou de predominar”, algo mundo interessante, evidentemente, e dá a entender que isso colaborou para que o evento fosse mais “condizente com os ares de um palácio de governo”. O vermelho não condiz com isso. A analogia é clara.

Com a argumentação do texto, há a construção de um super-herói nacional, que fez o discurso governamental mudar “para melhor” e que busca urgentemente “pacificar e unificar o Brasil”. O brasileiro é pacífico, mas os representantes políticos pintam um quadro de verdadeira guerra civil. Claudetes e troianos vivem bem sob do sol, ainda que com discordâncias.

O Globo desta que Temer acenou, fez um tchauzinho (quem sabe, de longe), para reformas nas leis trabalhistas e na Previdência, “um avanço enorme, depois de 13 anos em que o PT se recusou a fazer estas e outras reformas essenciais. O resultado aí está”. Os editorialistas do jornal parecem estar pulando de verdadeira alegria. Miga, seje menas.

Machismo

A coluna de Nelson Motta, “Depois da queda”, em O Globo, é no mínimo triste. Ele afirma que é patético dizer que são machistas os que querem o impeachment de Dilma. De fato, nem todos são, mas muitos são. Porque não só os contrários ao PT são machistas – a sociedade brasileira é.

“Dilma caiu não por ser mulher, mas por seus erros, teimosias e irresponsabilidades, marcada pelo estilo grosseiro e autoritário que a aproxima de uma caricatura dos machistas mais truculentos”, diz.

É verdade a primeira parte. Mas dizer que o fato de ela ter um estilo grosseiro e autoritário é uma caricatura machista é o próprio ato machista. Quem foi que disse que todas as mulheres precisam ser meigas, doces, suaves e submissas?

Nelson Motta está compactuando com aqueles que usaram exatamente esse tipo de comparação para desmoralizar Dilma apenas por ela ser mulher. Talvez seja até por isso que a presidenta não chorou ao se afastar do cargo: a mulher não é o sexo frágil. Saiba disso.

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