Em busca da terra do talvez


O Mayombe é uma grande floresta tropical com grande concentração de montanhas que fica localizada em Cabinda, em Angola, mas também abrange o Congo e o Gabão. É esse local o cenário principal que dá nome a um dos livros de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela.

Vencedor do Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, o escritor retrata no livro especialmente os problemas internos do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual ele próprio participou, e que é o grupo que conduziu a revolução pela independência do país e o governa desde então.

O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóbada de ramos e folhas para as encobrir. Os paus serviram para as paredes. O capim do teto foi transportado de longe, de perto do [rio] Lombe. Um montículo foi lateralmente escavado e tornou-se forno para o pão. Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas e tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais.

O livro Mayombe, escrito em 1971 e publicado nove anos depois, questiona valores dos guerrilheiros do MPLA e mostra que, muitas vezes, são machistas, egoístas e bastante preconceituosos com outras etnias, do ponto de vista do que na obra é chamado de tribalismo, um problema que – se fomos tratar aqui – vai desencadear em uma longa discussão sobre a partilha da Áfica, realizada na Conferência de Berlim, entre 1984 e 1985.

Cinco capítulos longos compõem a obra de 252 páginas (Editora LeYa, 2013) e a descontrução da figura dos heróis do movimento vai mostrar um pouco de como era a opressão dos portugueses colonizadores (os tugas), o planejamento e as ações da guerra de libertação ou de independência, a guerra civil propriamente dita e o que os personagens faziam em alguns períodos de calmaria que apareciam vez ou outra, em que não havia nada para fazer.

Pepetela expõe no livro a sua própria experiência na guerrilha e discute questões culturais que eram um problema na Angola de antes e podem ter se estendido até hoje, considerando o histórico demográfico do país. A disputa interna entre os diversos grupos étnicos angolanos e a desconfiança entre uns e outros levaram a mais problemas, no enredo, do que a própria batalha contra os colonizadores.

– Viste como o Comissário ficou zangado? – perguntou Milagre. – Se ele ficou assim, é porque o Comandante estava mesmo errado. O Comissário não fica zangado à toa.
– Porque o Comissário nunca erra? – disse Pangu-A-Kitina.
– Não é isso que eu estou a falar – disse Milagre. – Mas tu, lá porque és kikongo, só queres defender o Comandante.
– Ai é? E por que é que vocês o atacam? Porque são kimbundos…
– É melhor travar aí a discussão, camaradas – disse Teoria.
Ninguém lhe ligou importância.
– Nos Dembos – disse Milagre – um tipo como o Sem Medo já não vivia. Já o tínhamos varrido!
– Como varreram os assimilados e os umbundos em 1961 – disse Pangu-A-Kitina. – Mas isso não parou aí. Ainda vai haver muitas contas a ajustar.

Esse é o contexto das personagens, cada uma com um pseudômino usado no MPLA – nome de guerra. Nesse sentido, o Comandante Sem Medo surge como um conciliador, que é contra o tribalismo, mas acumula defeitos como o machismo. Colocado frente a uma discussão entre membros de duas tribos diferentes ou com um destribalizado, ele critica a falta de união dos combatentes: “É assim que vamos ganhar a guerra?”.

O tribalismo e a tensão étnica angolana são dramaticamente expostos em “Mayombe”, especialmente com as angústias de Teoria, uma espécie de “professor” no movimento, que é mestiço. Ele emociona, ao dizer que “criança ainda, queria ser branco, para que os brancos não me chamassem de negro. Homem, queria ser negro, para que os negros não me odiassem”. É também ele que faz uma das reflexões mais importantes do livro nesse contexto:

Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.

O próprio autor tem em sua origem uma mistura de etnias. Pepetela descende de uma família colonial portuguesa. Seus pais nasceram em solo angolano, assim como ele, que não traz na pele a cor de 19 a cada 20 angolanos, que são negros. Evidentemente, ele se expõe na obra. Isso acontece especialmente quando indica a seção “Eu sou”, que divide os capítulos. Cada parte dessas “seções” conta histórias e reflexões de determinados personagens.

Essa divisão do livro em diversos narradores – uma polifonia: várias vozes narrativas dentro de um único texto – traz a impressão de que o autor não quer perpetuar uma verdade absoluta, um dogma, mas uma discussão sobre aquilo que acontece no Mayombe. Essa discussão se dá também pela grande quantidade de diálogos e segue com uma grande autocrítica ao sistema.

A recusa ao dogmatismo é reforçada em trecho que, numa conversa, perguntam a Sem Medo: as tuas ideias não são absolutas? Ele diz: “Todo homem tende para isso, sobretudo se teve uma educação religiosa. Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular”. Assim, o autor indica que todos os pontos de vista devem ser levados em conta.

Um dos personagens que assumem o papel de narrador é o professor Teoria. Ele alcançou esse “posto” devido aos conhecimentos que tem, é o que se conta. O próprio nome de guerra aponta para isso. Ele não recusa participar de nenhuma ação, pois precisa se mostrar mais forte que os demais, porque leva consigo o pecado original do pai-branco.

Bazukeiro do grupo, o personagem Milagre,  kimbundo de Quimbaxe, é outro exemplo. Seu relato é um dos mais fortes do livro, especialmente quando ele lembra dos tempos de criança na altura de 1961: “lembro-me ainda das cenas de crianças atiradas contra as árvores, de homens enterrados até ao pescoço, cabeça de fora, e o trator passando, cortando as cabeças com a lâmina feita para abrir terra, para dar riqueza aos homens”.

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Na obra, Pepetela ainda representa o machismo enraizado na sociedade – não digo angolana, mas mundial – de duas formas. A primeira, é que há apenas homens na história; as poucas mulheres são retratadas como traidoras, vulgares e até mesmo prostitutas. Uma delas tem relacionamento com um dos personagens, mas o trai com outro – depois, com outro – instituindo uma figura dita vulgar, conforme a descrição de seu corpo e de seus modos.

Quem vai centralizar todos esses detalhes, no livro, é – de modo geral – o Comandante Sem Medo. Quase nada de sua origem é revelado pelo narrador, de modo que o personagem se constitui de forma misteriosa e contraditória. Ele não é um herói, também não é um vilão. Ele é o próprio “talvez” que o professor Teoria analisou. Pepetela mostra que as estratificações não são necessárias, porque o ser humano é muito complexo para ser rotulado.

Está aí a grande importância do autor, ao retratar a guerrilha de independência angolana. O entendimento de que apenas com a união dos mais variados tipos de pessoas, com temperamentos e sonhos distintos, pode ajudar a melhorar o mundo ao redor. O mundo não é maniqueísta e os personagens tentam compreender, subjetivamente, esse pensamento, ao longo de cada trajetória de sofrimento e poucas alegrias.

O vestibular da Fuvest passou, em 2016, a recomendar a leitura obrigatória de “Mayombe”. Saindo do eixo Brasil-Portugal (em que Portugal é representado geralmente pela tríade Camões-Gil Vicente-Almeida Garrett), a inclusão da literatura africana mostra não apenas a necessidade de adquirir uma cultura distinta, mas de discutir problemas sociais e humanos que são universais. É uma decisão acertada, porque o livro é apaixonante.


Clique aqui e confira trechos do livro.


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Um comentário sobre “Em busca da terra do talvez

  1. Pingback: Trechos: Mayombe, Pepetela | Reticência Jornalística

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