Trechos: Mayombe, Pepetela


“O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros. As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóbada de ramos e folhas para as encobrir. Os paus serviram para as paredes. O capim do teto foi transportado de longe, de perto do Lombe. Um montículo foi lateralmente escavado e tornou-se forno para o pão. Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas e tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais.”

Vencedor do Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, Pepetela retrata no livro Mayombe especialmente os problemas internos do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual ele próprio participou, e que é o grupo que conduziu a revolução pela independência do país e o governa desde então. Leia abaixo alguns trechos da obra e também a resenha.

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Teoria: “Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? OU são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta”.

Comandante Sem Medo, falando sobre o professor Teoria, que havia ferido o joelho e mesmo assim queria participar das ações de guerrilha junto com os colegas: “Há vezes em que um homem precisa de sofrer, precisa de saber que está a sofrer e precisa de ultrapassar o sofrimento. Para que, por quê? Às vezes, por nada. Outras vezes, por muita coisa que não sabe, não pode ou não quer explicar”.

Milagre: “Eu sofri o colonialismo na carne. O meu pai foi morto pelos tugas (termo depreciativo com que se referem aos portugueses). Como posso suportar ver pessoas que não sofreram agora mandarem em nós, até parece que sabem do que precisamos? É contra esta injustiça que temos de lutar: que sejam os verdadeiros filhos do povo, os genuínos, a tomar as coisas em mãos”.

Muatiânvua: “Eu, Muatiânvua, de nome de rei, eu que escolhi a minha rota no meio dos caminhos do Mundo, eu, ladrão, marinheiro, contrabandista, guerrilheiro, sempre à margem de tudo (mas não é a praia uma margem?), eu não preciso de me apoiar numa tribo para sentir a minha força vem da terra que chupou a força de outros homens, a minha força vem do esforço de puxar cabos e dar à manivela e de dar murros na mesa duma taberna situada algures no Mundo, à margem da rota dos grandes transatlânticos que passam, indiferentes, sem nada compreenderem do que é o brilho-diamante da areia duma praia”.

Chefe de Operações: “Vocês acreditam que vamos politizar alguma coisa? Aqui só a guerra é que politiza”.

Comandante Sem Medo: “As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso, toda a gente deve estudar. Mas aqui o camarada Mundo Novo é um ingénuo, pois que acredita que há quem estuda só para o bem do povo. É essa cegueira, esse idealismo, que faz cometer os maiores erros. Nada é desinteressado”.

Comissário Político: “Não somos [referindo-se aos membros do MPLA] bandidos. Somos soldados que estamos a lutar para que as árvores que vocês abatem sirvam o povo e não o estrangeiro. Estamos a lutar para que o petróleo de Cabinda sirva para enriquecer o povo e não os americanos. Mas como nós lutamos contra os colonialistas, e como os colonialistas sabem que, com a nossa vitória, eles perderão as riquezas que roubam ao povo, então eles dizem que somos bandidos, para que o povo tenha medo de nós e nos denuncie ao exército”.

Teoria: “Os rótulos pouco interessam, os rótulos só servem os ignorantes que não veem pela coloração qual o líquido encerrado no frasco”.

Muatiânvua: “O brilho do diamante são as lágrimas dos trabalhadores da Companhia. A dureza do diamante é ilusão: não é mais que gostas de suor esmagadas pelas toneladas que o cobrem”.

Comandante Sem Medo, em conversa com o Comissário, após afirmar que este tem que se habituar com os homens e não com os ideais: “É o teu trabalho: mostrar tantas aldeias aos camaradas que eles se perderão se, um dia, voltarem à sua. A essa arte de desorientação se chama formação política!”.

Milagre: “Era miúdo na altura de 1961. Mas lembro-me ainda das cenas de crianças atiradas contra as árvores, de homens enterrados até ao pescoço, cabeça de fora, e o trator passando, cortando as cabeças com a lâmina feita para abrir terra, para dar riqueza aos homens”.

Comissário Político, ao debater o fuzilamento de um membro do MPLA que roubou dinheiro dos trabalhadores: “Quantos papos batemos nós para explicar como se deve tratar o povo? Os erros anteriores não justificam um erro presente. E só pode haver um castigo. Somos nós que permitimos estes erros que estragam as nossas relações com o povo. Somos nós, com a nossa fraqueza, o nosso tribalismo, que impedimos a aplicação da disciplina. Assim, nunca se mudará nada”.

Teoria: “Como é dramático ter sempre de escolher, preferir um caminho a outro, o sim ou o não! Por que no Mundo não há lugar para o talvez? Estou no Mayombe, renunciando a Manuela, com o fim de arranjar no Universo maniqueísta o lugar para o talvez”.

Milagre: “Um intelectual, que nada conhece da vida, que não sofreu, um homem desses é que pode condenar-nos?”.

Comandante Sem Medo: “Ninguém se queria oferecer, porque Muatiânvua é um destribalizado. Fosse ele kikongo (etnia do norte de Luanda) ou kimbundo (etnia que abrange Luanda e Malanje) e logo quatro ou cinco se ofereceriam… Quem foi? Lutamos, que é cabinda, e Ekuikui, que é umbundo (etnia mais populosa de Angola). Uns destribalizados como ele, pois aqui não há outros cabindas ou umbundos… É assim que vamos ganhar a guerra?”.

Teoria: “Criança ainda, queria ser branco, para que os brancos não me chamassem de negro. Homem, queria ser negro, para que os negros não me odiassem”.

Comandante Sem Medo: “O amor é um duelo. Mas o amor realizado é também uma combinação, diz-se mesmo que os velhos casais acabam por se assemelhar fisicamente”.

Muatiânvua: “A imensidão do mar que nada pode modificar ensinou-me a paciência. O mar une, o mar estreita, o mar liga. Nós também temos o nosso mar interior, que não é o Kuanza, nem o Loje, nem o Kunene. O nosso mar, feito de gotas-diamante, suores e lágrimas esmagados, o nosso mar é o brilho da arma bem oleada que faísca no meio da verdura do Mayombe, lançando fulgurações de diamante ao sol da Lunda”.

Teoria: “A minha história é a dum alienado que se aliena, esperando libertar-se”.

Comandante Sem Medo: “Sou é contra o princípio de se dizer que um Partido dominado pelos intelectuais é dominado pelo proletariado. Porque não é verdade. É essa a primeira mentira, depois vêm as outras. Deve-se dizer que o Partido é dominado por intelectuais revolucionários, que procuram fazer uma política a favor do proletariado. Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada o Partido nem o Estado e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização”.

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