O senão do blog


Começo a arrepender-me deste blog. Não que ele me canse (e cansa bastante); eu não tenho pouco o que fazer e, realmente, expedir algumas magras reportagens ou crônicas para este mundo sempre é uma tarefa que me distrai um pouco da mortal eternidade.

Hoje, o Reticência Jornalística completa meia década de existência e por muitas vezes, como as memórias póstumas de Brás Cubas, cheirou a sepulcro e trouxe uma certa contração cadavérica – um vício grave. Contudo, desistir de continuar não parece um destino, falar demais é um defeito que eu levo.

Sei perfeitamente que, por muitas vezes este blog se tornou enfadonho, não apenas no sentido de ser cansativo, mas também no sentido de aborrecer.

Gosto de aborrecer as pessoas. Tanto quanto o rapaz que vende fones de ouvido no metrô, gritando repentinamente: “Este aqui é importado, não do Paraguai nem de Nova York, este é de Moscou: moscou, os guarda levou”.

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Ora, aqui eu falo e misturo os assuntos como se não houvesse objetivo no texto – não há, de fato. Só acredito que no nosso processo dialógico há um certo quê de poesia, e poesia bem barata. Mas barata da vizinha ou barata da paixão segundo G.H.? Meu silêncio fora silêncio ou uma voz alta que é muda?

Pelo amor de Deus, eu sei que tudo isto é enfadonho, mas o maior defeito deste blog és tu, leitor! Tu tens pressa de ir para a rua, de ir para a escola ou para a faculdade, tens pressa de ir trabalhar, e não consegue conversar por cinco minutos que sejam! Peço cinco minutos há cinco anos!

Tu tens pressa de envelhecer, e o blog anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este blog e o meu estilo são como os bêbados, dão uma guinada à direita e à esquerda (sempre a esquerda), andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…

E caem! – Caem como a Dilma caiu nas mãos de deputados, senadores e Michel Temer, todos golpistas que destroem a democracia como uma rica revoltada de novela atira uma taça ao espelho. Caem como a chuva no Sistema Cantareira ou como eu no piso molhado pelo suor da humanidade.

Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Uma lágrima de saudade por tudo que eu já publiquei com amor aqui e que hoje, arrogantemente, sinto até um pouco de orgulho.

Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar. Mas nós estamos vivos. E espero que este blog complete mais meia década, uma década, meio século, quem sabe até mais. Vamos ver.

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