Por que versos?


Quando eu estava na faculdade, participei de uma palestra do narrador esportivo Gustavo Villani, hoje na Fox Sports. Na ocasião, ele disse o seguinte:  “não gosto de jornalismo literário porque a notícia não deve ser feita em versos e com rimas”.

Já ouvi muitas bobagens na vida, mas essa, em especial, martela até hoje na minha cabeça. Primeiro porque ele desconhece o que é jornalismo literário. Depois, porque é sim possível fazer notícias em versos, como Manuel Bandeira já mostrou, com seu João Gostoso – aquele que bebeu, cantou, dançou e se atirou na lagoa.

Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
(Manuel Bandeira)

Quando a gente escreve uma notícia, temos que nos acostumar à pirâmide invertida (informações por ordem de relevância), à objetividade, à inexistente imparcialidade. No jornal, isso é inflexível. No poema, temos uma certa liberdade. Mas o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade, se estou na solidão, pensando em você?

Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Luís de Camões e William Shakespeare, além do excepcional Paulo Leminski, são exemplos de quem condensa muito mais do que fatos em poucas palavras, em versos, com ou sem rimas. Acho que é disso que o jornalismo precisa para se reinventar. Ser mais sensível, menos frio.

“Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri
antigamente eu era eterno.”
(Paulo Leminski)

Mas como não podemos transformar o mundo, vamos transformar a nós mesmos. O trabalho muitas vezes nos deixa frios para os detalhes humanos que podem fazer de nós pessoas melhores. Foi por isso que, em uma manhã de outono, eu percebi as gotas de orvalho como lacrimejos de saudade da ingenuidade, da simplicidade da infância.

Claro que isso fez parte de uma oficina. Foi preciso uma aula para eu pudesse aprender que aquele modelo (flexível) de 17 sílabas em três versos do haicai, aquele poeminha sem título ou rimas que se popularizou no Japão dos samurais, era suficiente para falar muito mais do que as palavras podem dizer, mas com menos palavras do que eu gostaria.

“Crisântemo branco –
sequer um grão de poeira
ao alcance dos olhos.”
(Matsuo Bashô, o mestre dos haicais, que viveu entre 1644 e 1694.)

Dezenas de pequenos poemas foram publicados aqui neste espaço e cada um poderia ser transformado em uma crônica. Mas é preciso ser direto, objetivo, conciso, para ser menos incompleto. Algo que é uma dificuldade muito grande para mim – eu falo demais! Dando uma flexibilizada no modelo de haicai, estou tentando resumir meu mundo em versos. Isso vai continuar, para que a prosa futura possa melhorar.

Sempre pode melhorar.

A comunicação é muito ampla para que a gente fique preso a um único modelo. Há milhares de formas de se contar uma história e você pode ver as que já foram contadas aqui, na seção de Poemas, e também conferir um pequeno fragmento da minha vida, que daria uma livro inteiro, mas vou contar em apenas três linhas, aqui.

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