A escolha


Eu duvido que o novo prefeito de São Paulo fará um governo melhor que o atual. Assim, não concordo, mas aceito o resultado das urnas apuradas. Três milhões, oitenta e cinco mil, cento e oitenta e sete é um número significativo. E foi essa a quantidade de votos que João Doria teve – o suficiente para ser eleito em primeiro turno.

O total de votos é pouco inferior à diferença que fez Dilma Rousseff vencer Aécio Neves, na segunda rodada do pleito presidencial de dois anos atrás. Entretanto, a quantidade de pessoas que votou em Doria é menor do que o total de brancos, nulos e abstenções: 3.096.304. Não há consenso sobre qual projeto de governo é melhor para a capital paulista.

Se o vencedor da eleição tivesse sido outro candidato, possivelmente não estaríamos tranquilos. A essa altura do campeonato, uma recontagem dos votos já teria sido pedida, assim como a auditoria das urnas, e um golpe já estaria sendo articulado pela oposição. Não queremos isso novamente. A democracia já foi muito maltratada.

Está fora da realidade acreditar que João Agripino da Costa Doria Junior – o João Trabalhador, que usa roupas de grife e faz cara de nojo quando toma um café pingado ou come um pastel de feira – fará um governo para todos. Ele representa a elite. E a primeira mostra disso é que ele, sozinho, tem seis vezes mais patrimônios do que os outros 10 candidatos juntos.

Também não é necessário dizer que Doria, um poste político, se elegeu menos por competência e plano de governo e mais por excesso de publicidade e por uma ampla campanha antipetismo criada não apenas pela mídia, ao longo de anos, mas agravada pelo afastamento de Dilma Rousseff da presidência do país e pela espetacularização dos atos de Sérgio Moro.

Logo nos primeiros dias após ser eleito em primeiro turno, Doria disse que não tentará a reeleição. Resta saber se isso é blefe, se ele será candidato ao governo estadual, ou se ele apenas tem medo da rejeição das sempre imparciais pesquisas de opinião. A fraqueza emocional é um traço forte daqueles que defendem a elite e não aceitam derrotas.

Apesar disso, a parte ruim de uma vitória no primeiro turno é que houve muito pouco debate acerca das propostas, não apenas de Doria, mas também dos demais candidatos. Em debates engessados e pobres, pouco se debateu os programas de governo a fundo. E o horário eleitoral não contribui em nada com a democracia. Porque ele não é democrático.

Digo sobre o debate, porque, uma pequena análise das propostas de João Trabalhador nos mostra alguns absurdos. Ele pretende fazer convênios com hospitais particulares para que os usuários do sistema público de saúde possam realizar exames em instituições privadas. Só que isso vai acontecer durante a madrugada. É uma medida para inglês ver.

Ora, por que o pobre poderá apenas realizar exames durante a madrugada, sendo que precisa acordar cedo para trabalhar? As linhas noturnas de ônibus, implantadas por Fernando Haddad, serão ampliadas, para facilitar o acesso aos hospitais durante a madrugada? A única vantagem nisso é dos empregadores, que terão a presença do funcionário mesmo que este esteja cansado.

Como se isso não bastasse, João Doria quer “passar para a iniciativa privada” (um eufemismo muito chique) o Estádio do Pacaembu e parques como o Ibirapuera. Logo mais, até as cuecas paulistanas estarão privatizadas, superfaturadas e com uma qualidade inferior. Doria também quer internar à força os dependentes de crack que vivem na região central.

Outra ideia absurda do prefeito eleito é a tendência para a utilização de ideias do absurdo Escola Sem Partido, que tem como símbolo Alexandre Frota e outros grandes especialistas em educação. Hipocrisia. Porque não existe ser humano sem política. A imparcialidade não existe, porque tudo o que fazemos é baseado em crenças, desejos, sonhos e muito mais.

A política é a essência do eu.

E tudo isso culmina em um tema sobre o qual o novo prefeito tem uma postura que me deixa envergonhado, até desacreditado. É a frase que João Agripino costuma repetir: “Eu não sou político, sou um administrador”. Mais do que enganar a população (tudo é política), isso é um atestado de falência prévia de seu governo na história.

O município precisa de um político, declarado, que se introduza nos meios legislativos e de outras instâncias do Poder Executivo, de forma a produzir melhores ações e investimentos para o local que ele governa.  O prefeito, assim como o governador ou o presidente, é um político administrador, nunca apenas um político, sequer apenas um administrador.

A política sozinha não significa nada.

Uma profissão sem política simplesmente não existe.

Como disse a candidata em quem votei, Luiza Erundina, negar a política é uma maneira de deseducar a população, que com os escândalos de corrupção se afasta cada vez mais do centro de debate da vida do país, dos estados e das cidades. É preciso assumir políticas, declarar ideologias e trabalhar em respeito aos eleitores.

Apesar de me opor, ideologicamente, ao governo, espero que João Doria honre os votos que ele teve. É simples e verdadeiramente uma pena que ele tenha começado, antes mesmo de assumir o cargo, a ludibriar os paulistanos.

A escolha foi feita pela maioria.

Daqui a quatro anos, veremos no que dará.

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