A polêmica do eu


Eu posso apostar como todo mundo conhece alguém que odeia o chefe. Eu posso apostar que talvez essa pessoa seja você mesmo. Praticamente todos os dias, ouço funcionários desanimados – no metrô, no ônibus, no WhatsApp, nas rodas de amigos – reclamando daqueles que mandam.

E não estou falando de reclamações por salários baixos – porque isso infelizmente é algo comum – ou cargas horárias com mais horas extras do que tempo normal, sem que a empresa autorize um banco de horas – o que é mais comum ainda.

Eu também não estou dizendo de pessoas que reclamam que o chefe é autoritário – um ditador, talvez um Costa e Silva ou um Médici dos anos 2010 – e que humilha os funcionários, grita com eles e ameaça demiti-los caso ousem reivindicar direitos trabalhistas.

Tudo isso é muito comum, hoje em dia. Mais do que podemos imaginar – como eu disse, você mesmo pode ser a vítima, sem que nem tenha se dado conta. Mas a reclamação que mais me incomoda não é nenhuma dessas. É a da desvalorização do trabalho. Pelo chefe.

Há uma recomendação muito idiota, nos trabalhos acadêmicos, que diz para evitarmos o uso da primeira pessoa do singular e optar pela primeira do plural: nós pesquisamos, nós investigamos. Bobagem. Porque, na maioria das vezes, você fez tudo sozinho; então: eu pesquisei, eu investiguei. Sem vergonha e sem mais ou menos credibilidade por isso.

Essa polêmica pronominal não é algo que se reserva ao mundo paralelo dos artigos, monografias, dissertações e teses. O problema também está nas relações de trabalho. Com o chefe, falemos na lata.

pen_agenda_smartphone-wallpaper-1366x768

Acredito que muitas pessoas que agora leem esse texto já flagraram seu superior dizendo – para o superior dele – que aquele trabalho muito bacana foi Maluf quem fez “fui eu quem fiz”. Nessa história de “eu quem fiz”, o tal do eu não sabe nem como salvar o arquivo do projeto no computador, nem aumentar de tamanho a fonte textual do arquivo.

É comum que isso aconteça, não apenas como sinal de insegurança (“meu subordinado não pode saber fazer uma coisa que eu não sei ou fazer melhor do que eu faço; ele pode puxar meu tapete”), mas, principalmente, é sinal de mau caráter.

E antes que você pergunte, eu explico o motivo.

Não é possível confiar em “líder” que assume para si a responsabilidade (apenas das coisas boas, geralmente) de algo que foi resultado de um trabalho de outra pessoa ou de todo um grupo. Para que um projeto seja concluído com êxito, muita gente precisa se movimentar.

Isso é o que mais irrita e desanima funcionários de diversas empresas. O chefe cresce a partir de uma falsa imagem construída a partir do suor do subordinado. Parece redundante, mas é aquela história do óbvio ululante que ninguém vê.

Para que o trabalho seja eficaz e o ambiente, agradável, não é apenas necessário que não haja gritos, xingamentos, e que haja respeito aos direitos garantido pelas leis trabalhistas. Mais do que isso – paradoxalmente, pode ser até menos que isso.

É preciso que os chefes abandonem o “eu” e assumam o “nós”, para que as equipes sejam de fato equipes. Ainda que o chefe não saiba fazer metade do trabalho que os funcionários fazem, fica menos feio do que dizer que foi ele quem fez, sozinho, como um mestre.

O bom trabalho é sempre plural.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s