A criança amaldiçoada


J. K. Rowling tem, com Harry Potter, a mesma dificuldade que Arthur Conan Doyle teve com Sherlock Holmes: a personagem fez um sucesso estrondoso e o público nunca aceitou o fim das aventuras, obrigando o autor a “ressuscitá-lo” (no caso de Sherlock, literalmente) para que os leitores pudessem se deliciar. Conan Doyle fez isso muito melhor do que Rowling tenta agora fazer.

Afinal, também assinada por John Fiffany e Jack Thone, a obra que a escritora inglesa lançou em 2016 em muito difere da qualidade dos sete romances da série. Em primeiro lugar, porque não é um romance. É um texto teatral: apenas nomes das personagens, suas falas e alguns detalhes de expressão ou de cenário.

Entretanto, para quem leu todos os livros, é extremamente fácil imaginar as feições, as expressões características e os detalhes de cada cenário descritos nas aventuras de “A criança amaldiçoada”. Porque quem escreve não traz basicamente nenhum ambiente que seja desconhecido aos leitores. Algo que empobrece a história, afinal, sempre houve novos lugares para Harry explorar.

Dentro da indústria cultural, J. K. Rowling apenas aguça o paladar de todos nós para saber o que aconteceu dezenove anos depois da Batalha de Hogwarts, na qual Harry derrotou Lord Voldemort (até então para sempre). Vale uma nota: esses “dezenove anos após” fazem com que as personagens cheguem ao ano em que estamos – 2017 – e isso mostra que o lançamento do livro não é desinteressado.

Na obra teatral, Harry Potter – casado com Gina – é diretor de execução das leis da magia (um cargo bastante frustrante para o bruxo que ele é), enquanto Rony Weasley é dono de uma loja de logros e sua esposa (aí, ok), Hermione Granger é nada mais que a ministra da Magia (óbvio). Harry e Gina são pais de Tiago (mais velho), Lilian (mais nova) e o bem nomeado Alvo Severo, que é de fato o protagonista e acaba de ingressar nas Escola de Hogwarts, junto com a filha de Rony e Hermione, Rosa.

Como em todos os outros livros, Harry ainda não conseguiu superar a perda dos pais e tenta, sem nunca ter tido pais antes, saber lidar com a paternidade. Ele afirma isso de maneira dramática em uma das cenas a Alvo, filho com quem tem grandes problemas de relacionamento e são essas dificuldades que vão dar gás ao enredo.

“O que mais me dá medo, Alvo Severo Potter, é ser seu pai. Porque aqui eu estou operando sem guia nenhum. A maioria das pessoas pelo menos teve um pai para servir de base… e ou tentam ser, ou tentam não ser. Eu não tive nada… ou muito pouco. Então estou aprendendo, está bem? E vou tentar con tudo que tenho… ser um bom pai para você.”

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Fora o fato de Harry Potter não saber como lidar com o filho, esse filho acaba (pequeno spoiler) ingressando na Casa de Sonserina, que recebeu Voldemort, Lucio e Draco Malfoy no passado e agora recebe Escórpio, filho de Drado, que se torna o melhor amigo de Alvo. Para desespero dos pais, evidentemente. Draco e Harry são antigos desafetos, já que o primeiro descende de uma família de comensais da morte que defendiam aquele que queria matar o segundo.

Os pais das crianças não reagem bem à amizade, mesmo que todos se lembrem que Harry (Grifinória) salvou Draco (Sonserina) e o professor Severo Snape (diretor da Sonserina) foi um dos que mais lutou para manter Harry Potter vivo e acabou morrendo por causa disso, sendo homenageado no futuro dando nome ao filho do menino que sobreviveu.

Na história, as duas crianças conhecem uma garota chamada Delfie, que diz ser sobrinha de Amos Diggory, pai de Cedrico Diggory, que foi morto no lugar de Harry (por ordem de Voldemort) na disputa do Torneio Tribruxo, no distante quarto livro da série, “O Cálice de Fogo”. Ela pede ajuda para trazer o primo de volta a vida, com um vira-tempo encontrado pelo Ministério da Magia.

O vira-tempo é objeto que faz as pessoas voltarem ao passado e já foi usado por Hermione em “O prisioneiro de Askaban”, para que ela conseguisse assistir a todas as aulas possíveis e impossíveis. No caso, Alvo, Escórpio e Delfie querem voltar no tempo para salvar a vida de Cedrico.

Tudo isso em meio a boatos de que Draco não podia ter filhos e Escórpio seria filho legítimo de Tom Servolo Riddle, o Lord Voldemort. Imagine o que acarretaria no presente uma ligeira alteração no passado do mundo bruxo. Pois é.

Fora esse enredo, o novo livro vai trazer os mesmos valores das demais histórias: a amizade (entre dois meninos e uma menina, novamente), a coragem, a teimosia e uma certa arrogância (afinal, Harry não é assim tão doce), além da importância da família. Este tópico foi em parte ausente na vida do protagonista da série, que construiu sua família a partir de seus amigos.

Não é justo dizer que a história não é interessante. J. K. Rowling construiu um universo incrível, que transporta qualquer ser humano a um mundo mágico no mais óbvio dos sentidos. Contudo, ela deixa muito a desejar ofertando apenas um teatro em vez de um romance, ou um conto – tipo de texto que caberia perfeitamente ao livro “A Criança Amaldiçoada” inteiro. Se ela quiser se generosa conosco, deve lançar uma coletânea de contos sobre o mundo bruxo.

O universo criado para Harry Potter é incrível e é mais profundo, bonito e interessante do que as peças publicitária em que se tornaram. A autora já está rica, famosa, é amada por todos os leitores e deve ter mais o que fazer. Por isso, pode parar com a série. Mas se optar por continuar, é melhor que seja de um modo mais digno dos sete livros anteriores, o que não aconteceu tanto assim no último lançamento.

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