Retalhos de almas


Afinal, todos somos como Lord Voldemort. Queremos deixar partes da nossa alma espalhadas pela cidade afora, para que sejamos imortais. Claro que ele, com as horcruxes, queria algo diferente de nós.

Só queremos ser lembrados como alguém que marcou alguém.

Acredito que boa parte da nossa vida é dedicada a construir um “eu” que possa ser algo de importante no futuro. O ser humano tem essa necessidade de um certo status. É algo intrínseco à vida e não podemos ser hipócritas de dizer o contrário.

Mas esse nosso eu, sabemos muito bem, não serve de nada para nós mesmos, que vamos passar. Nós vamos morrer. Se você ainda não acredita nisso, é hora de começar a pensar sobre e aproveitar mais seus momentos especiais.

Eu vou morrer, algum dia. Por mais que, espero, isso esteja bem distante, me dá uma sensação de vazio no peito. Eu quero ficar aqui! Aqui está a minha família, a pessoa que eu amo, meus amigos. Aqui tem açaí, pagode antigo e sofrência.

O céu pode esperar. O inferno também. O purgatório, o limbo, a terra – sabe-se lá o quê! Pensar na morte me dá agonia. E muito medo. Medo de não ter todo o tempo do mundo para ver meus filhos frutificando.

Ou o Corinthians ganhando outra Libertadores.

Medo não ter amado o bastante sequer a mim mesmo, como diria Drummond. Acima disso, tenho medo de ficar longe daquela pessoa que me completa, partindo do pressuposto de que eu tenho que morrer antes. Não aguento a solidão.

Mas quem aguenta?

Abstract empty white room interior with wooden wall and floor

Quem aguenta ficar aqui também, sentindo saudade? Saudade de um pai que partiu, de uma cachorrinha que há muito suspirou, de um papagaio que parou de cantar “Atirei o pau no gato”. São feridas que não cicatrizam por inteiro.

Acho que somos, sim, como Lord Voldemort. Todos nós. Deixamos pedaços da nossa alma espalhados por aí, cativando corações daqueles que trombamos nessa longa (às vezes nem tanto) estrada da vida. E os outros deixam almas também em nós.

A vida é uma grande troca de retalhos de alma que se costuram e fazem com que a nossa vida seja melhor. Que sejamos felizes, que possamos amar. Se não fosse isso, que sentido faria tudo o que fazemos? São muitas perguntas e nenhuma resposta.

Cada retalho de alma que se costura em nós deixa marcas. Depois, machucam. Porque, além do amor, nada é para a sempre. Na verdade, não. A saudade é para sempre. É por isso que as vezes queremos esconder as horcruxes que os outros depositaram em nós.

Uma pessoa que se vai é um retalho de alma que se solta no nosso coração e que precisa ser costurado novamente. E esse procedimento leva dias, meses, anos para ser concluído. Cada agulhada, quando é dada, dói. Às vezes dói bastante.

Mas sentir dor ao se ver diante de um pedaço de alma é o mesmo que olhar para trás e ver que aquelas lembranças são boas.

Que a dor da saudade pode ser mais prazerosa do que um sofrimento. É saber que as pessoas, assim como nós, deixamos marcas de carinho por onde passamos.

E, talvez, seja esse mesmo o objetivo da vida.

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