A fé na avenida


A origem do carnaval é mais ou menos pagã (pelo menos aos olhos dos cristãos). Os religiosos conservadores abominam a festa que antecede a quaresma, a paixão e a ressurreição de Jesus. Mas em poucas épocas do ano se fala tanto em religião quanto durante o reinado de Momo.

Ora, você pode dizer que eu estou ficando maluco. Não estou. E vou mostrar isso. Os enredos de todas (todas) as escolas do grupo especial paulistano que desfilaram no sambódromo faziam referências diretas ou indiretas à fé ou a religiões.

Exagero? Não. Campeã do carnaval, a Acadêmicos do Tatuapé falou sobre a África, citou os orixás e foi clara: “na fé, na religião, somos todos irmãos”. A Império de Casa Verde clamou pela paz e lembrou os nossos guardiões e os anjos que nos guiam. 

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Carro da Tatuapé, que venceu o carnaval pela primeira vez em 2017.

A Dragões, falando sobre Asa Branca, e a Tom Maior, homenageando Elba Ramalho, mostraram as festas de São João. Esta última ainda trouxe um enredo que falava de Nossa Senhora e, em se tratando de Nordeste, de padre Cícero, claro.

Campeã em 2014 com um excepcional enredo sobre fé, a Mocidade Alegre comemorou o jubileu de ouro confirmando: “a minha força vem da minha fé” e “a voz que revela o caminho me diz que sozinhos não somos ninguém”.

A Acadêmicos do Tucuruvi lembrou o Olimpo dos deuses (que festejaram primeiro o carnaval da antiguidade), ao falar sobre arte de rua – algo que o prefeito João Doria, que varreu a avenida do samba já varrida antes por garis, ignora. A Mancha Verde e seus Zés do Brasil lembrou o pai adotivo de Jesus.

Acabou? Não acabou. A Vai-Vai falou sobre o candomblé, citado também pela Unidos do Peruche (que falou também de “Nossa Senhora, mãe do Senhor do Bonfim”, ao homenagear Salvador). A Nenê de Vila Matilde, ao falar de Curitiba, lembrou a umbanda da Angola.

Faltam quatro escolas. A Rosas de Ouro falou sobre o convívio à mesa (por si, lembra a Última Ceia) e recordou os santos Cosme e Damião. A Gaviões da Fiel falou sobre o povo que minha para São Paulo e falou da fé que acalentou tantas pessoas que deixaram suas terras.

Rebaixada após a sempre injusta apuração de jurados que entendem tanto de carnaval quanto o novo ministro do Supremo Tribunal Federal entende de normas da ABNT, a Águia de Ouro falou sobre animais e trouxe um carro com a arca de Noé. “São anjos mandados por Deus.”

Por fim, a grande surpresa concretizada no carnaval de São Paulo foi o grandioso desfile da Unidos de Vila Maria, escola de samba da zona norte, que fez um acordo com a Igreja Católica para homenagear a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida.

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Alegoria da Vila Maria, dura e injustamente penalizada em diversos quesitos.

Evidentemente, a ideia foi rejeitada por uma grande quantidade de católicos reacionários – que devem ter se arrependido após assistirem ao espetáculo. Foi o melhor desfile da Vila Maria, com um samba-oração digno de ser lembrado por anos.

Aliás, digo até que o samba da Vila Maria poderia ser cantado nas paróquias e, quem sabe, até regravado pelo padre Fábio de Melo com Marcelo Rossi tocando cuíca e Roberto Carlos nos pandeiros. O rei até mesmo liberou trecho de uma música dele para a escola.

De todos os desfiles, o melhor conjunto foi o da Unidos. Contudo, a agremiação foi injustamente penalizada pelos julgadores pela iniciativa. Mais ou menos como aconteceu com a Beija-Flor, no Rio, que inovou com um desfile sem alas.

A beleza das fantasias, o perfeito acabamento das alegorias e também dos adereços, a criatividade do mestre de bateria e a harmonia estavam impecáveis, ainda que eu torcesse pela Mocidade, que fez um desfile mediano.

A Unidos de Vila Maria, com todas as imposições da igreja, trouxe um ensinamento: é possível fazer um carnaval perfeito sem a exploração do corpo (feminino ou masculino) e, com fantasias, de fato. É um exemplo e uma ideia a ser discutida nos próximos anos.

Para a Arquidiocese de São Paulo, fica a alegria de uma decisão bem tomada – um desfile de carnaval bem feito é mais evangelizador e muito menos hipócrita do que muitas homilias e grupos de oração que se reúnem para fofocar país afora.

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Carro da Mocidade Alegre, que fez um desfile menos impactante que o costume.
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