Leitor raiz


O leitor raiz tem uma visão romântica do livro. O leitor raiz tem prazer em folhear as obras. O leitor raiz suspira ao sentir um cheiro de páginas novas – e também adora o perfume dos antigos. O leitor raiz fica encantado com o amarelado de um livro velho. O leitor raiz vai me corrigir, dizendo que não há livros velhos, mas clássicos.

Já o leitor nutella pouco se importa se o livro não tem orelhas nem pensa duas vezes antes de dobrar uma página para marcá-la. O leitor nutella não se importa se as páginas são offset (brancas) ou pólen (levemente amareladas). O leitor nutella sequer tem problemas em ficar horas lendo no computador e espirra com livros empoeirados.

O leitor raiz não substitui por nada nesta vida seu livro de papel, quem sabe aqueles de capa dura, que pesam três quilos e fazem os braços doerem de cansaço. Por outro lado, o leitor nutella tem se adaptado cada vez mais a fazer leitura dinâmica em um celular, que pesa no máximo 200 gramas. Por isso mesmo, é o leitor raiz quem se desespera com o futuro do livro.

E temos toda a razão em pensar nisso. Lá na primeira metade do século XX, Walter Benjamin já dizia que o livro, como objeto, caminhava para o fim. Será? Em 1971 foi criada a primeira digitalizadora de obras, nos Estados Unidos. Hoje, não faltam por aí e por aqui bibliotecas virtuais para compra, pirataria gratuita e divulgação de domínio público.

Se vai haver mudança, ela será lenta. Em 2010, os livros digitais representavam 8% do total de títulos literários no mercado estadunidense. Pesquisa apresentada em 2011 por Fabiana Stifelman Katz à Universidade Federal do Rio Grande do Sul também aponta que também em 2010, no Brasil, os e-books ainda eram desconhecidos por 67% da população.

Não sei como está essa porcentagem hoje, sete anos depois, mas acredito que o livro digital seja do conhecimento de boa parte daqueles que têm acesso à internet – 58% da população em 2015, segundo o governo federal. O desconhecimento não é uma surpresa. Historicamente, a tecnologia é atrasada no nosso país.

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Por exemplo, a imprensa como conhecemos hoje – que vai remontar ao século XV, na Alemanha de Gutenberg – só chegou aqui oficialmente com a vinda da família real portuguesa para cá, no século XIX. Por isso mesmo, é retardado o processo para que nos adaptemos a novos meios. Eu, quando tenho que ler algo extenso da internet, imprimo.

O leitor nutella, que é um tipo meio vegetariano, vai dizer que o livro ser digital não é um problema, ajuda até na preservação do meio ambiente… Mas o leitor raiz é um carnívoro insaciável, que tem prazer em segurar o livro, devorá-lo, guardá-lo, abraçá-lo, colecioná-lo. Para depois dizer sobra a obra: amei-a por um mês e duas parcelas no cartão de crédito.

Temos um desespero muito grande em prever o que vai acontecer no futuro, sem deixar que o presente flua naturalmente. Óbvio. O livro digital é um facilitador do acesso à literatura. É difícil segurar um Grande Sertão de um lado para outro, no ônibus e no trem, mas é tão fácil se equilibrar e ler no celular enquanto andamos ou, imprudentemente, atravessamos a rua!

Não acredito que o livro físico acabará um dia, porque tudo que é clássico também se torna eterno, perene, para que possa ser admirado. A própria imprensa vive esse dilema. Hoje veículos como o Jornal do Brasil (RJ), O Estado do Paraná (PR), Diário do Comércio (SP) e O Sul (RS) deixaram de ser impressos para viver apenas do jornalismo online. Tem dado certo.

Até Umberto Eco refletiu que “ou o livro permanecerá o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da tipografia. As variações em torno do objeto livro não modificaram sua função, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor do que uma colher”.

Isso é algo que transcende o concreto: o livro é algo além do livro. Assim, qualquer coisa pode ser um livro, desde que cumpra com as funções básicas a que o livro se propõe: levar histórias, informações, experiências e difundir conhecimentos. É o que eu penso. O primeiro livro que tivemos, pensando assim, foi a cultura oral. Hoje, temos a cultura digital.

É naturalmente esperado que os e-books ganhem cada vez mais força, sem, contudo, assassinar o livro impresso, assim como a televisão não acabou com o rádio, nem o rádio acabou com o jornal, nem o jornal acabou com o livro antigo. Mas o fato é que eu vou continuar gastando o meu dinheiro com obras físicas. Afinal, eu sou muito raiz.

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