Suprema arrogância


“Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Acho que o cargo é de presidente, não é, não?”, disse rindo a ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, Carminha para os íntimos, ao tomar posse da presidência do Supremo Tribunal Federal.

Ela havia sido questionada pelo colega que transmita o cargo, Ricardo Lewandowski, se ela seria uma presidente ou uma presidenta. Isso aconteceu em 10 de agosto de 2016 e demonstrou que a suprema senhora precisa estudar mais seu idioma nativo.

Afinal, desde que Dilma Rousseff tomou posse do primeiro mandato todo mundo está cansado de saber que gente da estirpe de Aurélio Buarque de Holanda e Antônio Houaiss reconhecem há anos uma palavra que também consta do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o Volp, da Academia Brasileira de Letras (ABL).

É evidente que o discurso jurídico utilizado na mais alta corte da república das panelas é bem anterior ao século XIX, de tão arcaico. Vale lembrar apenas a quantidade de expressões em latim que usam só para… bem, não sabemos o objetivo disso.

 No começo, Cármen Lúcia aparentou que seguiria pelo caminho da polêmica, afinal, insinuou que Dilma não foi uma estudante sequer uma amante da língua portuguesa, assim como todos que então utilizavam o tal substantivo no feminino.

Mas como o mundo dá muitas voltas, no dia 25 de outubro do mesmo ano, ela acabou pagando caro (ainda que ninguém tenha reclamado) pela arrogância que demonstrou 76 dias antes e que só agora tive tempo para registrar aqui.

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Foto: Rosinei Coutinho/STF

Irritada com o presidente do Senado, Renan Calheiros, que chamou de “juizeco” o responsável pela Operação Métis que determinou a prisão de policiais legislativos, ela abriu uma sessão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) dando uma bela demonstração de seu amor pelo português.

“Onde um juiz for destratado, eu também sou, qualquer um de nós juízes é”, disse. Está em vídeo, não é invenção. Ora, vejamos. Como estudante e amante, a ministra deveria saber que cometeu um grave erro para a gramática normativa: faltou a concordância verbal.

O segundo e o terceiro verbo (sou e é) tinham que estar no futuro, para concordar com o primeiro (for). Ou então o contrário: for seria substituído por é. Assim: onde um juiz for destratado, eu também serei; onde um juiz é destratado, eu também sou.

Bem, acredito que toda forma de escrita é válida, às vezes os erros são propositais (às vezes falta revisão ou simplesmente conhecimento, o que não é um problema). Só que é preciso tomar cuidado ao cuspir para cima.

O que não pode acontecer é uma autoridade nacional humilhar milhares de pessoas insinuando que elas não estudaram, ou não estudaram direito, ou não são amantes da língua que falam. Em outras palavras, que são burras e ignorantes.

Evidentemente (creio eu), a Cármen Lúcia não pensa assim. Mas, como juíza, precisa tomar cuidado para não aderir a um discurso que destrua ainda mais, junto aos chateados, a imagem de imparcialidade e seriedade que o STF deveria ter e já não tem.

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Foto: Cesar Ogata/Prefeitura de São Paulo

Grande gestor

Para aproveitar o fio das bobagens ditas por autoridades, impossível não lembrar o que João Doria, o Trabalhador, disse no dia 26 de março de 2017 que o bairro da Lapa, da zona oeste, fica na zona norte de São Paulo.

Em entrevista, ele disse a jornalistas: “não sou motorista de Uber nem motorista de táxi, um pequeno equívoco não é algo para ficar chateado”. Pode não ser motivo para ficar chateado, mas é algo para deixar o eleitor com uma pulga atrás da orelha.

Como “gestor”, é muito estranho que João Doria não conheça de ponta a ponta a cidade/empresa da qual está à frente, principalmente tendo um batalhão de assessores. Foi um erro grave, que indica que o trabalhador não está à altura da gerência que São Paulo precisa.

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