A criança amaldiçoada

J. K. Rowling tem, com Harry Potter, a mesma dificuldade que Arthur Conan Doyle teve com Sherlock Holmes: a personagem fez um sucesso estrondoso e o público nunca aceitou o fim das aventuras, obrigando o autor a “ressuscitá-lo” (no caso de Sherlock, literalmente) para que os leitores pudessem se deliciar. Conan Doyle fez isso muito melhor do que Rowling tenta agora fazer.

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Em busca da terra do talvez

O Mayombe é uma grande floresta tropical com grande concentração de montanhas que fica localizada em Cabinda, em Angola, mas também abrange o Congo e o Gabão. É esse local o cenário principal que dá nome a um dos livros de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela.

Vencedor do Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa, o escritor retrata no livro especialmente os problemas internos do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual ele próprio participou, e que é o grupo que conduziu a revolução pela independência do país e o governa desde então.

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A morada da dor

“Seria muita ingenuidade acreditar que os generais Emílio Médici e Orlando Geisel criaram os DOIs (destacamentos de operações de informações) sem terem percebido que a sigla se confundia com a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo doer. Por mais de dez anos essas três letras foram símbolo da truculência, criminalidade e anarquia do regime militar.”

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O divã de histórias da morte

FOTO-Marcelo-MasagaoJoão Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.

Uma noite, escreveu Manuel Bandeira, ele chegou no bar Vinte de Novembro, bebeu, cantou, dançou, depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Na perspectiva dessa única certeza humana, de que todos ­– tristes, felizes, fortes e fracos – morrerão, Marcelo Masagão (que está na foto ao lado) produziu seu “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (Riofilmes, 1998).

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Órfão da simplicidade

Orfandades-O-destino-das-ausenciasEu posso jurar que não acreditei quando li a frase “quero que essa vaca morra sapecada no inferno” no livro escrito pelo padre Fábio de Melo. Talvez eu seja conservador para essa rebeldia literária do padre ou o padre seja muito revolucionário para a minha compreensão.

O livro se chama “Orfandades”. Foi lançado em 2012. A sinopse da obra diz que a temática é um olhar poético sobre as ausências humanas. E, como toda boa propaganda, diz que a narrativa é envolvente e que o autor nos convida a uma aventura literária que investiga a crueza e os avessos dos sentimentos humanos. O leitor deve saber, e eu vou dizer isso, que o livro não investiga absolutamente nada.

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